Texto Enviado por Sidney Richard Sylvestre
O presente texto é basicamente uma espécie de contra ponto, também breve, as considerações que achei mais importantes levantadas pelo Walter Hupsel sobre a importância da atuação do governo no setor de educação.
A primeira questão se refere à negativa em tratar a educação como uma mercadoria igual a qualquer outra. Considero valido e concordo com o ponto, o que não passa de opinião pessoal quanto à importância do bem em questão, opinião que não necessariamente será igual à de outras pessoas. Mas se deixarmos de lado as valorações pessoais sobre a importância ou não de um bem especifico, veremos que qualquer coisa que seja considerada escassa será trocada (demandada e ofertada) em mercados, afinal essa é uma das suas finalidades, alocar bens escassos entre os agentes, seja isso um bem “durável”, no sentido de prestar serviços ao longo do tempo como a educação ou um bem cujo serviço se esgota mais rapidamente como uma barra de chocolate. No caso da educação é mais interessante encará-la como um investimento onde os pais e mais à frente os próprios filhos pagam determinada quantia durante um tempo para no futuro receberem algum beneficio como, por exemplo, do ponto de vista dos filhos, rendimentos na forma de salários mais elevados ou ainda do ponto de vista dos pais, “uma velhice mais confortável” como retribuição do filho por tanto esforço no passado ou mesmo “só” o prazer de vê-lo bem simplesmente porque se importam com o futuro dos filhos e isso inclui obviamente a questão dos rendimentos esperados do pimpolho.
Os pais assim, preocupados com o futuro dos filhos seja por “amor” ou por vis considerações materialistas futuras procurarão escolas que segundo eles próprios possam oferecer uma formação mais adequada para o bem estar futuro da criança. Alguém pode questionar se caberia aos pais tarefa tão importante, mas imaginando as alternativas, como o governo fazer a escolha, não parece caber muita duvida sobre essa questão. Os pais além do famoso incentivo familiar (o querer bem o filho) citado acima, mais do que ninguém possuem o conhecimento do “ambiente social” que a criança viverá boa parte de sua vida, pelo menos a parte que o filho não tomará o rumo da sua própria vida e fará suas próprias escolhas. Dessa forma os pais podem fazer uma escolha mais adequada sobre o tipo de educação desejada para o bem dessa criança. Possuem também mais conhecimento sobre a situação interna, especifica da própria família de modo que procurarão fazer um planejamento familiar mais adequado, distribuindo os gastos com a criança entre os vários bens necessários ao longo do tempo de forma mais favorável ao próprio bem estar do filho, provavelmente uma escolha mais acertada que a de outra pessoa que não disponha dessas informações.
Dentro desse quadro, não só acredito ser um erro exigir regulação do estado sobre conteúdo a ser ensinado como também um erro ainda maior ofertar educação “gratuitamente”. No primeiro caso, o da regulação do conteúdo, o erro surge devido à especificidade desse mesmo conteúdo que uma educação realmente importante para o bem estar da criança teria que fornecer, especificidade essa que é sufocada a cada aumento da “uniformização” do programa. No segundo caso um erro extremamente importante está em alterar os preços relativos dos diferentes tipos de educação e assim levar os pais a realizarem escolhas erradas que prejudicam a própria criança. Só para argumentar, dando um exemplo radical: se a escola do governo é ofertada gratuitamente em relação a outros tipos de educação, como por exemplo, a educação diferente que o próprio pai daria, o diferencial entre o custo e os benefícios esperados que a criança terá fica maior em relação à educação do governo mesmo que, se o pai tivesse que pagar as duas, como ele tem no caso de ensinar o filho – custo de oportunidade, a opção de ensinar em casa fosse a que apresentaria a melhor relação custo - beneficio. Isso é somente um exemplo para mostrar algo bem mais geral: o governo ao alterar o preço relativo da educação através do subsídio leva os pais a tomarem decisões ruins do ponto de vista do próprio futuro das crianças e da sociedade como um todo, ou dito de outra forma mais genérica: os custos dos recursos gastos na educação estatal (no caso não arcados pelos pais individualmente, mas pela sociedade através do governo) excedem os benefícios, dado o “erro” na decisão individual provocada pela distorção dos preços. É mais um exemplo de um velho “resultado”: o governo ao tentar ajudar, mesmo que as intenções sejam boas, só atrapalha.
O mesmo argumento também é valido para o caso da universidade pública (é um subsidio a outra forma de “educação”, e como todo subsídio ineficiente – os custos superam os benefícios). Argumentar a favor do subsídio do governo a essas áreas em nome da manutenção da quantidade de pesquisas e vagas, dizer que a oferta desses “bens” cairá também é um engano em termos de “mais bem estar”. É preciso avaliar o quanto custa essas coisas e comparar com os benefícios. O governo ao tributar e usar esses bens para ofertar educação impõe custos – esses bens usados na educação poderiam ser usados para outros fins, para produção de outras coisas. Ora, o custo perdido pela não produção desses bens é maior ou menor que o beneficio futuro da educação? E ainda, qual tipo de educação e qual tipo de pesquisa? Por isso a importância de um sistema de preços sem distorções por parte do governo onde o agente arque com os custos e receba os benefícios do caminho escolhido para determinar se tal investimento em educação / pesquisa e em que tipo desses bens vale ou não a pena do ponto de vista do bem estar do próprio individuo e da sociedade (se os custos superam os benefícios). Podemos incluir nisso as questões relacionadas a bolsas para estudantes carentes. Universidades e centros de pesquisas privados que obtém suas receitas voluntariamente do consumidor porque produzem algo valorado por eles teriam total incentivo a oferecerem bolsas aos realmente capacitados e dado que esse tipo de ação traz benefícios maiores que os custos (seja pelas pesquisas futuras que os bolsistas farão no próprio centro ou pela “reputação” de formar bons profissionais), um sistema vasto de “caça talentos” e até mesmo bolsas para escolas de ensino básico poderia ser instituído. Provavelmente um sistema desses seria muito mais eficiente que o atual vasto programa de subsídios oferecidos pelo governo tanto na educação básica, quanto na educação superior. Pesquisa e educação, por si só, não significam nada, é preciso que, do ponto de vista das pessoas, esses investimentos futuramente tragam algo benéfico que supere os seus custos, caso contrário essas mesmas pessoas estariam melhores caso os recursos fossem usados em outros setores. O governo alterar o mecanismo de preços, por onde são feitas essas considerações é um erro e impossibilita justamente o aumento de bem estar que é usado como argumento para o subsidio desses setores.
Assim, por considerar, como disse no começo do texto, a educação algo tão importante, tanto para os pais no começo da criação dos filhos quanto para os próprios filhos acho que o governo deveria deixar por completo o setor, deixar que o mercado oferte eficientemente um bem tão vital, deixar que através do sistema de preços sejam alocados os recursos escassos “da sociedade” na oferta dos tipos de educação, dos currículos que são os melhores do ponto de vista dos próprios pais e filhos e que estes possam tomar as decisões corretas através dos preços sem distorções causadas pelo governo que levam a uma piora da situação do ponto de vista dos próprios envolvidos e também da sociedade.
PS: o autor deste texto entra na classificação de “louco” do Walter Hupsel – defende que ruas, segurança, cortes sejam todos ofertados somente por agentes privados, que sejam bens comprados como qualquer outro e seus financiamentos sejam feitos através de pagamentos voluntários por parte dos consumidores justamente por considerar que imposto é um roubo como qualquer outro.
PS2: Um dos maiores argumentos para subsídio à educação por parte do governo é a existência de externalidades positivas e que, portanto os preços não captariam todo o beneficio gerado por uma melhor educação levando assim as pessoas se educarem menos do que o “ótimo” (um aumento nos gastos com educação levaria a um aumento do beneficio social maior que esses gastos). Como isso não foi citado, não me preocupei muito com esse ponto, no entanto, não me parece existir qualquer externalidade positiva significativa nesse tema (podemos encontrar sim várias menores tanto positivas como negativas). Além disso, mesmo que existisse uma externalidade significativa a melhor forma de se “corrigir” o problema seria uma delimitação mais adequada de direitos de propriedade e não aumentar a intervenção do governo na economia. Usar a segunda opção seria como dar a um doente um remédio que causa um efeito colateral pior do que o beneficio prometido.
